Relação de carga aguda/crônica confere confiança a profissionais ao liberar atletas lesionados para retornar aos treinos e competições.

Quantos profissionais já tiveram seu trabalho e/ou competência questionada quando um atleta se lesiona após ter passado pelos cuidados do departamento médico? Quando situações desse tipo ocorrem, médicos, fisioterapeutas, fisiologista e preparadores físicos se questionam e tentam encontrar respostas para entender o que aconteceu.

No dia a dia de um clube profissional, definir o momento em que um atleta será reintegrado para treinar normalmente (sem limitações) com todo o elenco não é tão simples. Alguns fatores devem ser levados em consideração: Restabelecimento da função específica; restabelecimento das funções musculosqueléticas, cardiopulmonar e psicológica.

Após diagnosticado o tipo e gravidade da lesão, os atletas são encaminhados ao departamento de fisioterapia. Esse profissional é capacitado para desenvolver protocolos de reabilitação da lesão e assegurar que o indivíduo retome a função fisiológica que foi prejudicada pela lesão.

Na evolução desse paciente/atleta, os fisioterapeutas iniciam treinamento de força e exercícios que exigem movimentos específicos da modalidade: aceleração, frenagem, mudança de direção, etc. Claro, tais tarefas são realizadas em intensidade apropriada.

Ao se tornarem “funcionais”, esses atletas iniciam a fase de transição, nesse momento, preparador físico e fisioterapeutas normalmente atuam em conjunto para que em um menor tempo possível os atletas recuperem seu nível de força, aptidão aeróbia, etc. O próximo passo é liberar esse atleta para reintegrar o elenco e realizar os treinamentos com seus colegas, mas, como assegurar que ele está pronto para desempenhar sua função e não se lesionar novamente?

Normalmente, os atletas são submetidos a avaliações para garantir que estão aptos. Avaliação do histórico médico, testes físicos (protocolos de avaliação de força, capacidade aeróbia e anaeróbia, velocidade, agilidade, etc.) são empregados e, normalmente, os resultados obtidos são comparados aos resultados de avaliações realizadas antes da lesão.

Além disso, a opinião do atleta é levada em consideração. Caso o mesmo esteja confiante, a evolução dos treinos é feita, mas caso o jogador tenha alguma insegurança e medo de ter uma nova lesão, a evolução de seu quadro é feita em um ritmo mais lento.

Ao longo de minha carreira, esse tema sempre foi algo que me chamou atenção e gerou boas discussões e trocas de ideias com os colegas de trabalho. Sempre busquei encontrar soluções junto aos fisioterapeutas e preparadores físicos para garantir um caminho seguro, sem grandes riscos.

Em um dos grandes clubes que trabalhei no Brasil, conseguimos estabelecer um protocolo de avaliação antes da reintegração do atleta. Após cumprir os treinamentos na fase de transição, teste na plataforma de força (saltos verticais e balanço bifásico), teste de velocidade, limiar anaeróbio, Yoyo Test e agilidade eram realizados. A liberação do atleta dependia dos índices alcançados nas avaliações, os resultados deveriam estar iguais ou próximos aos valores de avaliações prévias, realizadas antes da ocorrência de lesão.

É verdade, também, que em alguns casos a reintegração do atleta atropelou o protocolo estabelecido. Devido a dinâmica do futebol, muitas vezes é preciso queimar etapas para atender a necessidade da equipe e treinador e disponibilizar o jogador para treinar e competir, mesmo que esse não seja o cenário mais apropriado e de menor risco de lesão.

Acredito que essa metodologia adotada funcionou bem, pois havia um entendimento de todos os profissionais envolvidos no processo, mas, particularmente, sempre tinha dúvidas de até que ponto esse atleta estava realmente apto para ser submetido à carga de treinamento normal.

Além disso, em muitas oportunidades, perguntas sem respostas prontas são feitas aos fisiologistas. Por exemplo, por diversas vezes treinadores perguntam quanto tempo de jogo o atleta está apto para suportar. Particularmente, nunca encontrei na literatura científica um trabalho que responda a esse questionamento. Não encontrei um artigo científico que correlacione resultado de teste físico com tempo de jogo suportado pelo jogador.

Acredito que os protocolos de avaliação têm importância no processo de treinamento, pois os resultados dos testes físicos indicam o caminho a ser percorrido, entretanto, a capacidade de predizer lesão destes testes é questionada. Monitorar e controlar a carga de treinamento gera dados importantes para basear a tomada de decisão e definir o momento mais adequado para reintegrar um atleta lesionado, baseado nessas informações, pode ser mais seguro.

Na busca por melhores soluções e respostas para os desafios diários, encontrei na relação de carga aguda/crônica (apresentada em um “post” anterior nesse blog) uma boa resposta para lidar com essa situação.

Quando submetido aos cuidados do departamento médico, a carga de treinamento do atleta é diminuída, dessa forma, os valores da carga crônica (aptidão física) diminuirão. Quanto maior o tempo de inatividade, maior a redução da carga crônica.

Ao retornar aos treinamentos, durante a fase de aquisição, o valor da relação de carga aguda/crônica deve ser superior a 1,0, porém o quão superior e o tempo de permanência em altos índices vai influenciar no risco de lesão.

Dessa forma, é indicado que o processo de transição e reintegração ao grupo seja feita de forma gradual e bem planejada. É preciso estar atento ao fato de que a carga crônica está reduzida e realizar estímulos que eram considerados normais antes da lesão pode significar uma sobrecarga.

Entretanto, percebe-se que, na prática, atletas são submetidos a uma carga de treinamento significativamente alta em uma única semana (carga aguda). A literatura científica relata caso de lesões nesse período de treinamento, devido a essa má gestão de carga.

Para garantir que o monitoramento da carga seja realizado de forma eficaz, a escolha dos parâmetros controlados deve ser criteriosa. A relação de carga aguda/crônica pode ser feita a partir de diferentes variáveis, entretanto, é interessante identificar qual delas são mais sensíveis à modalidade. Ao utilizar tecnologia de GPS para coletar dados, pode-se considerar informações de carga total (Player Load no caso da Catapult, marca com a qual tenho experiência prática), distância total percorrida, distância percorrida em alta velocidade e/ou sprints, além de acelerações e frenagens, como variáveis inerciais, importantes para quantificar ações de mudança de direção. Acima estão alguns exemplos de parâmetros.

Estudos científicos já mostraram que em modalidades intermitentes, assim como é o futebol, distância percorrida em alta intensidade (alta velocidade) têm maior correlação com o risco de lesão. Sendo assim, é importante garantir que, no processo de reintegração de um atleta lesionado, a evolução de carga seja cuidadosamente elaborada, assegurando que o equilíbrio na relação de carga aguda/crônica seja observado, principalmente para as distâncias percorridas em alta velocidade.

Em termos práticos, a reintegração de um atleta lesionado é mais segura após submetê-lo a um treinamento bem planejado e elaborado. A carga aguda deve ser organizada considerando que estímulos considerados normais antes da lesão passam a ser altos, até que a carga crônica retorne a valores elevados. Ao restabelecer altos índices de carga crônica, há menor risco de lesão.

Ao analisar as variáveis, monitorar cuidadosamente os valores de distância percorrida em alta intensidade, pois relatos científicos mostram correlação entre ocorrência de lesão com momentos de pico na relação de carga aguda/crônica desse parâmetro.

Enfim, o monitoramento da relação de carga aguda/crônica é uma ferramenta que deve ser incorporada ao processo de análise da evolução de recondicionamento de um atleta lesionado. Essa informação agrega maior valor aos resultados obtidos nas avaliações físicas, minimizando os riscos de novas lesões por sobrecarga e permite, aos profissionais, melhor embasamento teórico na hora de tomar decisão e decidir o momento adequado de reintegrar um atleta lesionado.

Aos interessados em aprofundar conhecimento sobre esse tema, é sugerido a leitura de artigos científicos do pesquisador australiano Tim Gabbett. Alguns de seus estudos estão disponíves no tópico “artigos científicos” de nosso blog.

9 comentários em “Relação de carga aguda/crônica confere confiança a profissionais ao liberar atletas lesionados para retornar aos treinos e competições.

  1. Primeiro, muito obrigado pelo texto.
    Uma pergunta, você julga válido utilizar o volume de treino ( PSE x Tempo) no calculo da carga aguda/crónica quando não se tem acesso a tecnologias como GPS por exemplo?

    Obrigado.

    1. Desculpe pela demora, passei um bom tempo sem acessar o blog.
      Extremamente válido. O Tim Gabbett em vários dos seus artigos utilizou desse controle para estabelecer a relação de carga aguda/crônica.
      Além disso, há diversos estudos mostrando a importância das avaliações subjetivas. No Brasil, o prof. Fábio Nakamura tem estudos sobre o tema, assim como o italiano Franco Impellizzeri.

    1. Obrigado, Charlinho! Saber que você gostou é uma motivação maior para me dedicar e compartilhar cada vez mais experiência e conhecimentos!

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