O fisiologista cria elos e facilita a tomada de decisão em equipes de futebol profissional.

Em 2006, quando tive o primeiro contato com um time de futebol profissional, o trabalho de uma equipe multifuncional começava a ganhar destaque. Alguns clubes já haviam incorporado esse conceito e contavam com diversos profissionais em suas estruturas (preparadores físicos, médicos, fisioterapeutas, fisiologista, nutricionista, psicólogo, etc.)

Com o decorrer dos anos, profissionais e clubes perceberam que um trabalho composto por diversas áreas de conhecimento não era garantia de trabalho interligado. É necessário compartilhar e considerar as informações geradas pelos diferentes profissionais na hora de tomar decisões e planejar os treinamentos.

Entretanto, na prática, ainda se percebe dificuldade de interação e colaboração entre colegas de trabalho. Isso, pois, por vezes falta uma forma mais eficiente de comunicação entre eles, assim como diferentes conceitos sobre o treinamento.

Diferença de conceitos pode gerar grande prejuízo a uma instituição: problemas de relacionamento pessoal são plausíveis de ocorrer; preparação inadequada para os atletas competirem.

Recentemente, na busca por respostas e formas de melhorar minha atuação profissional, tive acesso a um estudo publicado pelo australiano Tim Gabbett e Rod Whiteley. Nesse trabalho, os autores apresentam uma observação, que me levou a refletir e concluir que temos sempre que evoluir, interagir melhor com os colegas de trabalho, mas principalmente, ter muito cuidado e estar embasado com informações de qualidade antes de tomar decisões, evitando assim, a ocorrência de um ciclo vicioso.

A figura abaixo resume o estudo citado acima.

Segundo os autores, o ideal é que a atuação dos profissionais de um clube gere o ciclo verde, representado na figura acima. O adequado, seria submeter os atletas a uma alta carga de treinamento, o que consequentemente causaria adaptações e levasse os atletas a apresentar alto nível de condicionamento físico e boa performance.

Porém, o estudo alega que, na prática, o que se observa é a ocorrência de um ciclo vicioso, representado pelas cores vermelha e laranja. Devido a um distanciamento das áreas de conhecimento, gerado por problemas de relacionamento ou diferença de conceito, ocorre uma dicotomia de treinamento. Dessa forma, o processo de treinamento expõe os atletas a um maior risco de lesão, menor condicionamento físico e nível de performance inferior ao desejado.

Tal dicotomia se constitui no fato de haver um grupo de profissionais que se preocupam, predominantemente, por melhorar a performance dos atletas e por outro lado, prioridades em ações preventivas para que os atletas não apresentem lesão por sobre uso.

Conforme demonstrado na figura acima, o que acontece na prática é que com o intuito de levar os atletas a alto nível de condicionamento físico em pequeno espaço de tempo, profissionais responsáveis por performance aplicam carga de treinamento aumentada abruptamente, o que não é o indicado. Dessa forma, há um pico de carga aguda e os atletas estão mais susceptíveis a lesão por sobre uso.

Por outro lado, os profissionais preocupados em prevenir lesões por sobre uso recomendam a redução de carga de treinamento. Dessa forma, pode-se desencadear dois ciclos: um atleta que apresentará baixo nível de condicionamento e performance abaixo do desejado (ciclo vermelho) e um atleta que estará na fase de reabilitação crônica (laranja), pois treinamentos de baixa intensidade faz com que os atletas apresentem maior risco de lesão. Em ambos os casos, atletas têm baixo nível de carga crônica.

Diante esse cenário, o fisiologista pode e deve exercer um papel fundamental. Todos os profissionais de uma equipe multifuncional têm um objetivo em comum: vencer. Por isso, o fisiologista será o ele de ligação entre as distintas áreas de conhecimento e contribuíra com a evolução do sistema. Ele pode ser um intermediador no diálogo entre profissionais, assim, pode melhorar o ambiente em que exista problema de relacionamento, tal como encontrar o ponto de equilíbrio da carga de treinamento, compartilhando conhecimento científico e criar um conceito único na estrutura do clube em que trabalha.

Para isso, a maneira mais indicada é apresentar informações geradas através do processamento de dados e tomar decisões mais adequadas para cada situação. Segundo os autores do estudo citado nesse texto, a relação de carga aguda/crônica, mais uma vez, mostra-se uma ferramenta eficiente e assertiva.

Recentemente, foi definido por pesquisadores que lesões por sobre uso ocorrem em consequência a um erro na prescrição de carga de treinamento. Já foi estabelecido, também, que altas cargas treinamento estão relacionadas a maior risco de lesão, assim como um atleta mal condicionado encontra-se mais vulnerável. Por isso, diminuir a carga de treinamento pode não ser a melhor decisão a ser tomada na tentativa de prevenir lesões.

Dessa forma, o treinamento prescrito de maneira cuidadosa e bem planejado apresenta-se como uma excelente forma de prevenir lesões e assegurar boas performances. Assim, através de seu monitoramento sistemático, o fisiologista é capaz de ajustar com preparadores físicos e médicos a quantidade adequada de treinamento a ser aplicada. A evolução da carga aguda ocorrerá de forma segura, assegurando que os exercícios propostos estão ajustados em relação à carga crônica.

Teoricamente, a execução desse planejamento é simples de ser realizada. No cenário ideal, monitoramento sistemático, reuniões e conversas entre os profissionais envolvidos são ações fáceis de serem adotadas, entretanto, no “mundo futebol” as circunstâncias se alteram de forma inesperada e rapidamente.

Na prática, temos que lidar com diversas situações que dificultam que a teoria seja aplicada. Vaidades pessoais, ego, falta de diálogo associada à necessidade de resultados imediatos fazem com que processos sejam atropelados e os conceitos deixados de lado. Ao analisar a figura apresentada nesse “post”, penso que podemos encontrar respostas a vários problemas enfrentados nos bastidores de um time de futebol.

Quantas vezes um atleta recém contratado, vindo de um grande tempo de inatividade, acaba se machucando? Alguns atletas apresentam lesões recidivas ou subsequentes, ou seja, lesionam-se em locais previamente machucados ou apresentam uma nova lesão, poderiam ser eles resultado desse ciclo vicioso?

E como devemos pensar sobre o futebol brasileiro? Calendário extremamente congestionado, impaciência de torcida, falta de conhecimento da imprensa especializada que expressa e forma opinião, muitas vezes, de forma sensacionalista e irresponsável. O que é o mais adequado a se fazer? Aumentar a carga de treino ou diminuir?

Enfim, são tantos fatores que influenciam nas tomadas de decisão dos profissionais envolvidos, por isso, é importante que relacionamentos pessoais estejam cada vez melhor estruturados, assim como a discussão e aplicação de conceitos.

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